A metaformose agora é climática
sáb, nov 21, 2009
Contra a metamorfose ambulante, nem a mudança climática agüenta. O presidente Lula já fez a pose de quem vai chegar a Copenhague em grande estilo, sem suor e com fôlego de sobra para discursar à vontade, como um corredor de maratona que apareceu de repente, ninguém sabe de onde, na reta de chegada.
Dias atrás, seu governo ainda patrocinava no Congresso, pelo ministro Reinhold Stephanes, o combustível legal para novos recordes de emissões de CO2, abrindo o Código Florestal às alas das fronteiras agrícolas. E agora até Stephanes enche a boca com as novas metas estratosféricas do combate ao desmatamento. Sereão, se cumprirmos a palavra empehada por Lula, 570 milhões de toneladas de CO2 a menos. Entre vírgulas antes reservadas aos conchavos das autoridades monetárias, como as que estimaram as reduções entre “36,1 a 38,9%”.
Parece que a ciência exata enfim está a serviço do oportunismo político, revolvendo um tema que o Brasil custou mais do que o mundo para levar a sério. Mesmo quando hospedou no Rio de Janeiro a Eco-92, os anfiutriões mal podiam esperar que estrangeiros virassem as costas para resolver, em família, o futuro que realmente mais interessava aos brasileiros naquele momento: o do governo Collor, já então com um pé no ar, outro no impeachment.
Mudança climática é coisa velha, a não ser para a política internacional. A primeira lei americana para a proteção de espécies ameaçadas data de 1969, o ano em que aqui Lula se elegeu para a presidência do sindicato dos metalúrgicos em São Bernardo do Campo. Aquela foi uma fase de avanços ambientais nos Estados Unidos que nós, brasileiros, nem vimos passar. Elas levaram o governo Jimmy Carter a baixar leis para a conservação do Alasca, a conter a poluição industrial do ar e da água, a banir o chumbo da gasolina e a perder feio a eleição seguinte.
O Brasil tinha então outras prioridades internas, graves e urgentes, como acabar com a didatura ou, do ponto de vista da diyadura, impedir que Carter, em nome de sua política de direitos humanos, cutucasse os princípios hegemônicos que permitiam aos governos militares fazer o que bem quisessem com seus presos políticos em suas cafuas secretas. Essas ameaças à vida, do lado de cá, eram naquele tempo tão concretas, que mesmo a esquerda brasileira não tinha cabeça para pensar na vida dos lagos, dos rios e das florestas que, lá fora, as primeiras ongs ambientalistas estavam discutindo.
Foi por isso que a novidade ambiental só chegou por estas bandas quando alguns exilados, como Fernando Gabeira, voltou ao país falando de assuntos que aqui nem adiantava procurar nas primeiras páginas dos jornais ou nas últimas mesas dos bares. As coisas no Brasil têm o dom de parecer novidade mesmo quando chegam atrasadas. Talvez por acreditarmos que nossa história começa com cada governo. Atualmente, começou em 2003, com a primeira eleição de Lula. Numa época em que o primeiro relatório governamental sobre aquecimento do planeta já tinha quase um quarto de século, a conferência de Estocolmo sobre meio ambiente mais de duas décadas, e o diagnóstico científico de que hiperatividade humana ajudava a desregular o clima 15 anos.
Foi nesse período que o Brasil aproveitou para bater recordes de devastação na Amazônia, primeiro no regime militar, depois no civil, em seguida com o neoliberalismo, enfim com o sindicalismo metamórfico, como se não tivesse nada a ver com toda aquela conversa anterior de gringo para gringo. Levamos décadas para aceitar relutantemente que desenvolvimento não é bem copiar o atraso dos países desenvolvidos. E sim produrar atalhos para chegara onde eles já chegaram, poupando décadas de pesquisa e às vezes séculos de erros. Isso veio aos poucos, e a custo de muito protesto, através da pesquisa acadêmica e do debate científico.
O custo do desflorestamento na Amazônia ou na Mata Atlântica, com um mínimo de boa fé, qualquer pode ver a olho nu, se quiser. Mas o seu ganho só apareceu recentemente, em avaliações bem mais complexas. E é um ganho irrisório. Se não for pura perda. Através de institutos como o Imazon, ou de economistas como Carlos Eduardo Young, aprendemos que a pirataria madeireira leva em média 16 anos para produzir uma cidade fantasma habitada por miseráveis na Amazônia. No meio do caminhoi, concentra renda. No fim, produz mais miseráveis. Acabamos de constatar que os índices de desenvolvimento humano são mais baixos nos municípios mais desmatados do país. E que neles a violência é maior.
Foi dessas prerrogativas que o governo brasileiro abriu mão esta semana. Da prerrogativa de botar fora recursos naturais inestimáveis. Abriu mão desse princípio relutantemente até poucos dias atrás, e depois com toda a fanfarronice a que tem direito, ao ensaiar seu novo papel em Copenhague. Perdemos muita coisa com a demora. Mas a espera serviu pelo menos para deixar mostrar como as idéias políticas, depois que caducam, saem de cena sem choro nem vela, como tudo que já vai tarde.
Tags: Crise climática





novembro 23rd, 2009 at 12:44
Prezado Marcos,
Excelente texto, em que vc oportunamente nos lembra de tempos nem tão antigos assim, nos ajudando a recuperar fatos quase esquecidos no fundo da memória (pelo menos para cinquentões como eu).
Novos ventos sopram no Planalto. Esperemos que não sejam vendavais passageiros, mas uma brisa forte e duradoura, que nos leve a uma correção de rumo tão necessária.
Hoje pela manhã me surpreendi com uma reportagem no site do Washington Post, mostrando que até nossos fazendeiros já começam a mudar de postura.
Confira em http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2009/11/22/AR2009112201845.html
Não sei se essa cobertura já teria sido feita pela imprensa brasileira, mas agora certamente será traduzida e republicada por aqui.
Acho que seria muito bom nossa imprensa publicar esse tipo de relatos de ações positivas, indicadoras de mudança comportamental dos nossos atores agroindustriais.
Pena o mau exemplo de Santa Catarina, tão castigado pelas tragédias climáticas, que em vez de aperfeiçoar sua legislação ambiental, ensaia um recuo inaceitável das leis estaduais.
Nossos agro-empresários e fazendeiros precisam urgentemente serem esclarecidos das consequências de tudo o que fazem.
Eu mesmo tenho um primo que optou por ser plantador de soja. Começou no RS, trocou por terras mais amplas no Mato Grosso, finalmente assentou-se (definitivamente?) em Tocantins, onde foi pioneiro e hoje conta, com justo orgulho, sua saga. É uma pessoa esclarecida, graduou-se engenheiro civil, porém debater ecologia com ele é muito difícil, pois como tantos outros, vê a si próprio como um messiânico desbravador, espalhando o progresso rumo ao norte inexplorado.
Apesar de discordar dos argumentos, entendo sua lógica, embasada em velhos conceitos de ampliação das fronteiras econômicas.
Como se pode iniciar um diálogo mutuamente construtivo com esse tipo de brasileiro? Como alguns podem chegar às ações relatadas pelo WPost?
Certamente será necessário atitudes fortes pelo governo, legisladores, IBAMA, em cima de um sistema de ações de esclarecimento, punitivas e incentivos rumo à nova conjuntura que precisamos atingir – a qual por sua vez precisa estar muito bem delineada.
Excelente seu blog, parabéns. Encantou meu olhar de fotógrafo amador, apaixonado por essa arte há 4 décadas.
Abraços
novembro 23rd, 2009 at 16:01
Também vivo procurando esta resposta, para dar a quem merece ouvir que está errado, de alguém disposto a criticá-lo com o devido respeito, Rubin. Nem sempre é fácil explicar que o tempo do pioneiro passou, deixando para trás uma longa e merecida tradição de honradez, trabalho duro e dedicação familiar a pequenas propriedades. O fato é que os tempos mudam. E com eles, os erros que ontem mesmo nos pareciam, na pior das hipóteses, toleráveis, senão exemplos de virtude, de repente se tornaram vícios graves ou mesmo sintomas de autodestruição. Eu mesmo estudei num tempo em que até professores fumavam em salas de aula. E já houve um anúncio americano do cigarro Camel dizendo que “seu médico recomenda” aquela marca. Eu me lembro deles toda vez que tropeço por aí em depoimentos de agricultores, contando histórias fascinantes de expansão da fronteira agrícola, em que eles foram praticamente obrigados pelo Banco do Brasil a desmatar o máximo de terreno possível, para ter direito a créditos subsidiados. O fato é que estamos agora todos aprendendo a viver num mundo que está condenado a mudar para sempre, porque ficou pequeno demais para tanto comportamento temerário.
Um abraço,
Marcos
dezembro 21st, 2009 at 17:20
Marcos,
Tenho minhas sérias dúvidas a respeito dessa guinada de 180 gráus da política ambientalista do governo Lula. Pago prá ver!
Acho que foi mais uma jogada de marketing para sair bem na fita. Intento, diga-se de passagem, alcançado.Estou esperando por medidas concretas.
Sou geólogo e entendo um pouco de rochas metamórficas, mas fiquei curioso com sua expressão sindicalismo metamórfico. Que você quer dizer com isso?
Sds
dezembro 23rd, 2009 at 20:34
Carlos,
Em primeiro lugar, perdoe a demora desta resposta. Passei um tempo fora do ar involuntariamente. Mas sobre isso conversamos depois aqui no blog. Por enquanto, vai só a explicação do “sindicalismo metamórfico”. Foi o sindicalista Lula quem se definiu como metamorfose ambulante, não foi? Pois é, a novidade agora é que a metamorfose ambulante chegou ao ambientalismo, como sempre em hora mais que oportuna para nosso presidente estar sempre boiando na crista da onda.
Abraços e feliz Natal,
Marcos
fevereiro 6th, 2010 at 10:41
Fico imaginando, agora, após ter lido tudo acima, o que será que poderia ficar sempre boiando na crista da onda. Para se ficar boiando numa crista de onda há que ser o que, por exemplo. Penso que é melhor ficarmos somente no imaginário. Um presidente boiando na crista da onda, essa foi demais.