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O show aquático dos andorinhões

sex, nov 20, 2009

Iguaçu 2010

Abaixo das cataratas, nem o Parque Nacional do Iguaçu, com todos os seus exageros de flora e fauna tropical, consegue impressionar tanto os turistas quanto as andorinhas da Garganta do Diabo.

Está aí o Google que não nos deixa mentir. Experimente somar no mecanismo de busca o nome “Iguaçu” à palavra “andorinha”. Vêm 205 mil respostas. Ganha da combinação “Iguaçu” com “parque nacional”, que não passa das 236 mil associações de idéias.

A internet está cheia de pessoas contando que viram as andorinhas atravessar o trovejante paredão de água, para nidificar na relativa segurança de um paredão que nem os predadores mais vorazes costumam encarar, com sua inimitável combinação de graça, destreza e valentia.

Lá atrás, seu lugar é praticamente cativo. Mesmo se tratando de um pássaro que não gosta de frio, é dado a cair em estado de torpor mesmo pendurado por seis unhas em precipícios vertiginosos e, para escapar do inverno, faz viagens intercontinentais.

Agora, por exemplo, com o verão já instalado de pleno direito no Oeste do Paraná sem esperar pela inauguração oficial da temporada no calendário, o bicho anda fazendo uma verdadeira festa na quedas inchadas pelo ano de águas torrenciais, que quase não abriram brecha para a época da seca nas cataratas.

Platéia, portanto, não lhe falta, como atração indicada por guias e hotéis. Mas, seja por seus hábitos cosmopolitas, seja pelo malentendido original, que chamou de andorinha, ou andorinhão, uma meia dúzia de pássaros que não tem sequer parentesco próximo com as andorinhas, ele acabou muito famoso e pouco conhecido.

Por direito de  família, ele é um Apodidae. Ou seja, um “sem pés”, mais chegado ao beija-flor que à andorinha, por mais que até os ortinitólogos mais sérios, como Helmut Sicks, tenham lá duas dúvidas sobre essa familiaridade. Além dos pés pequenos, ele divide com seus primos alados o dom de voar muito rápido – já foi visto trafegando pelos céus da Europa a 150 quilômetros por hora – e de parar de repente, quando encontra pela frente, por exemplo, uma apetitosa nuvem de cupins, como se por um instante estivesse parado no ar.

Com asas tão boas e pés tão ruins, que só lhe permitem pousar com as unhas enganhadas em ressaltos de superfícies a prumo – como os dutos das chaminés, que também passou a considerar um convite à nidificação de alto risco – não admire que suas acrobacias aáreas acabem chamando a atenção de quem só tem olhos em Iguaçu para as cascatas.

De quebra, dizem os especialistas que ele aprecia um borrifo nas penas. Estamos falando especificamente, no caso, de um ilustríssimo desconhecido chamado Cypseloides senex. o andorinhão-velho-da-cachoeira, cuja presença batiza dezenas de cachoeiras no Brasil e em outros países americanos como “cachoeira das andorinhas”. Isso inclui o Salto de Dardanelos, no Mato Grosso, e um dos pontos mais visitados do parque do Manu, na Amazônia peruana.

E quem chegou até aqui já deve ter percebido que esta história foi escrita sem mais nem menos para justificar a compulsão com que o autor sentiu esta semana de fotografar a coreografia da água e dos andorinhões esta semana, no salto Floriano, no Iguaçu. E se não desse muito na vista, ele continuaria escrevendo, até mostrar todas as fotos. Como se vê, também mordeu a isca dos andorinhões.

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