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Como ganhar 185 mil hectares

qui, nov 12, 2009

Iguaçu 2010

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Ser o primeiro a ver as cataratas, num parque visitado anualmente por mais de um milhão de pessoas, é um privilégio quase pecaminoso. Mas é um privilégio que só exerce de pleno direito quem se lembrou na noite anterior de dormir com as cortinas abertas, para acordar com o primeiro sinal de luz, na manhã que mal começou a azular.

Nessas horas, o passeio começa antes mesmo de se tirar a cabeça do travesseiro. Um leve rugar das janelas nos caixilhos parece um sinal de que venta lá fora. Mas as copas das árvores quase paradas contra um céu onde vão apagando as últimas estrelas mostra que o arestá quieto.

Salto Belgrano e lírios_6547

É a terra que treme levemente. Sinal de que, no fundo do cânion do Iguaçu, a água está caindo com toda força. O dia promete. Aí é pular da cama e correr, porque um dos maiores espetáculos naturais do mundo estará logo ali, à sua inteira disposição, por duas ou três horas, as melhores do dia – ou, quem sabe, da vida inteira – para um fotógrafo.

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É um momento para se esticar ao máximo entre o fim da noite e o café da manhã, enquanto o Parque Nacional do Iguaçu está fechado para os visitantes, que chegam a formar filas impacientes e ruidosas nas trilhas dos belvederes, os bichos acham que aquilo tudo é deles e o sol bate nas quedas d’água com uma luz francamente teatral. Tudo isso só para quem dormiu no hotel das Cataratas, praticamente debruçado sobre as cataratas.

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Dá vontade de agradecer a todas as gerações de pioneiros imprudentes que, contra todos os preceitos de boa gestão dos parques nacionais, tiveram a infeliz idéia de botar hotel num lugar que não poderia ser mais feliz. Do saguão aos primeiros saltos são dois minutos em linha praticamente reta. Em seguida, o tempo é todo seu, até as portarias abrirem na estrada do parque.

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O hotel é o tipo da idéia que, hoje, ninguém teria. Ou, se tivesse, não teria coragem de pôr em prática. Só poderia ter ocorrido numa Foz do Iguaçu perdida na selva do Oeste paranaense, que em suas primeiras décadas de existência como povoado de fronteira tinha mais argentinos e paraguaios do que brasileiros morando em suas ruas de barro pegajoso e esparsas construções de tábuas.

Coube a seu prefeito Jorge Schimmelpfeng decidir que, se a Argentina tinha um hotel perto das cataratas, o Brasil não podseria ficar atrás. E foi buscar em Missiones o brasileiro Frederico Engel para inaugurar a hotelaria turística no município.

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Engel ergueu seu hotel na borda das cataratas. Ligou-o à cidade por uma estrada de 18 quilômetros, descrita na ocasião como um túnel sob “frondosos galhos dos gigantescos ipês e outros reis da floresta”. Pôs uma carroça de quatro rodas, com três parelhas de cavalos, a serviço dos hóspedes que, “por uma eventualidade, aparecessem”, recorda sua filha Elfrida. A traquitana levava de quatro a seis horas ir de Foz do Iguaçu às cachoeiras.

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A pousada rústica tinha seis quartos e um banheiro. Mas ficava num dos melhores pontos comerciais do planeta, como o turismo internacional haveria de constatar muitas décadas depois. Era exatamente o lugar onde, em meados do século passado, o governo brasileiro construiria o Hotel das Cataratas, que fez parte dos planos de instalação do parque nacional em 1939, mas só ficou pronto na década de 1950.

“O rio passa embaixo, num canal profundo, mas à frente, do lado argentino, há um largo paredão de mais de um quilômetro de extensão, por onde fogem as águas de um canal, formando uma série de lindos saltos”, escreveu em 1920 o deputado paranaense Jayme Ballão, que foi hóspede de Engels. Ballão achou “a vivenda um mimo de bom-gosto e conforto”, cercada de orquídeas, diante de uma represa onde nadavam “cisnes, gansos e marrecos”.

Nem por isso o estabelecimento pioneiro de Engel chegou a lotar. E lucro, mesmo, ele deu foi à história de Foz do Iguaçu, quando seu livro de registros recebeu em 1916 a assinatura de Alberto Santos Dumont. Como o anfitrião, o ilustre hóspede fora trazido da Argentina pelo prefeito Schimmelpfeng. E, levado de cavalo às cachoeiras. Ali, diante da Garganta do Diabo, encarapoitado num tronco sobre o abismo como fazia nas fuselagens de mabu de seus dirigíveis em Paris, o Pai da Aviação decretou: “É injusto que essas terras estejam em mãos de particulares”.

A essa altura, as cachoeiras não só tinham dono, como pertenciam a Jesus de Val, residente no Paraguai, mas autorizado pelo governo brasileiro a encarnar a soberania nacional naquele fim de mundo. E Santos Dumont, provavelmente o mais cosmopolita dos brasileiros em sua época, fez ao país o favor de notar que a globalização estava indo longe demais em Iguaçu.

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Naquela noite ele dormiu tarde, porque um baile em sua homenagem o manteve de pé, “parado em uma porta perto do piano”, até as quatro da manhã. No dia seguinte montou cedo, para cavalgar 74 léguas. Ia à Curitiba, levar o caso ao governador Affonso Alves de Camargo. O decreto de desapropriação saiu em 27 de abril de 1916, declarando de utilidade pública, para o estabelecimento de  “estabelecimento de uma povoação e um parque”, nessa ordem, a propriedade de Val. Tinha 1.008 hectares. E uma vista infinita.

A providência seguinte levaria 24 anos. Seria um novo decreto estadual, ampliando a reserva para 3.300 hectares. Prometia um “parque nacional”. Mas isso só o governo da União poderia fazer. E a a União só pensaria a sério no assunto a partir de 1935, quando os argentinos criaram, do outro lado, seu parque nacional del Iguazu.

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O hotel das Cataratas foi inaugurado em 1958, com a presença do presidente Juscelino Kubitschek e um banquete que serviu peixes da Amazônia aos presidentes Artuor Frondizi, da Argentina, e Alfredo Stroessner, do Paraguai. Mais internacional do que isso, só a partir da chegada de seu primeiro gerente, o austríaco Franz Kohlenberger, que se desobrava como guia de caminhadas, cavalgadas mata adentro e travessias em barco a remo nos remansos sobre a Garganta do Diabo. Sem falar que nadava nas corredeiras, fazia rapel nas pedras verticais do cânion e fotografa incansavelmente suas aventuras.

Passariam mais duas décadas antes que o parque tivesse, pela primeira vez, um plano de manejo à altura de seus propósitos de servir, mais que ao turismo, à conservação de um tesouro natural. O projeto, feito com todos os cuidados técnicos, envolveu o engenheiro florestal francês e toda a equipe administrativa do parque.

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Seu relatório final condenava abusos históricos, como a Estrada do Colono, cortando uma árrea intangível do Iguaçu. Recomendou a remoção de 400 famílias de posseiros, que viviam dentro do parque. E recomendava expressamente a demolição do hotel das Cataratas. Nesse ponto, o diretor Adílson Simão fez pé firme. “País pobre como o nosso não pode se dar a esses luxos”, ele concluiu. E graças a essa providencial teimosia é que, numa dessas manhãs de cataratas cheias e parques vazios, essas fotografias do parque na primeira luz do dia foram feitas com toda calma.

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2 Comments For This Post

  1. Rogério Says:

    Muitos legais as fotos; parecem até que tem som.

    Grande abraço.

  2. Sandro Salomon Says:

    Muito boa a s fotos. Já estive nas cataratas em agosto de 2008.

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