No meio da semana passou o Tietê
qua, nov 11, 2009
Quando o governo brasileiro senta tantos ministros para negociar entre si propostas para levar à Dinamarca como se já estivessem lá, discutindo com diplomatas estrangeiros na COP15, é hora de procurar notícias por aqui mesmo mais concretas. No caso, as notícias chegaram providencialmente em forma de livro. Um livro leve, bonito e otimista sobre um assunto que é quase nome feio: o Tietê.
Quem passa de má vontade por ele nos engarrafamentos de São Paulo, fazendo o possível para não vê-lo e, sobretudo, não aspirá-lo, deve achar que rio urbano só é tema ambiental que se preze nas pontes do Sena, nos parques novaiorquinos da beira do Hudson ou, para não ficar muito longe das atenções mundiais, nos canais de Copenhague.
Mas em Tietê, um rio de várias faces o jornalista Thiago Medaglia e o fotógrafo Valdemar da Cunha fizeram o contrário. Olharam o Tietê como se ele fosse um caso interessante. E até um cenário fotogênico. Todos os seus piores problemas estão lá – a poluição tóxica, o esgoto doméstico, a canalização sepulcral e o medonho lixo que lhe entope a calha imunda. Mas nada disso impede que se encontrem em suas páginas famílias de capivaras fitando a alva cordilheira de edifícios cada vez mais altos nas avenidas marginais. Ou que, no caminho de Pirapora, o rio passe por uma serra povoada por 652 espécies de borboletas. E que em Barra Bonita atravesse eclusas que são, literalmente, o ponto alto de cruzeiros fluviais em barcos lotados de turistas.
Tudo isso para botar na perspectiva do Tietê – ou seja, a de seu próprio curso, da nascenmte à foz – a frase de um diretor do Departamento de Águas e Energia Elétrica de São Paulo, que deve ter incomodado particularmente o repórter, porque figura entre aspas na primeira linha do livro: “O Tietê não é mais um rio. É um canal de engenharia”.
E ele é mesmo uma escadaria de barragens, descendo da Serra do Mar e correndo para longe do Atlântico, rumo ao interior paulista, até desaguar no rio Paraná, mil e tantos quilômetros a oeste. É por causa desse curso que ele foi, em priscas eras, o rio das entradas e bandeiras. E hoje é uma hidrovia onde barcaças levam quase cinco milhões de toneladas de soja, cana-de-açúcar ou material pesado de construção pelo Brasil adentro.
Em outras palavras, do ponto de vista estritamente utilitário, o Tietê está em plena atividade, irrigando negócios e confuzindo pioneiros, como sempre. Isso após séculos de exploração predatória e avarenta, com o mínimo de investimento em conservação. Suas nascentes em Salesópolis só foram oficialmente localizadas na década de 1950. Viraram parque estadual há 13 anos. Na capital, seu trecho mais vistoso é um antigo lixão, promovido a “parque ecológico” para 50 mil visitantes, em média, nos fins de semana.
Ao longo do rio, cada população ribeirinha tem o Tietê que pode ou que merece. Em Pirapora do Bom Jesus, onde a correnteza transforma numa nata de espuma suspeita as toneladas de detergente diluídas em suas águas, Medaglia encontrou um menino de nove anos que compara esse brinde da poluição a “algodão doce com canela”.
Rio abaixo, surge impávido em sua cabine de comando o tarimbado barqueiro Hélio Palmesan. De tanto transportar pessoas em viagens de recreio pelo médio Tietê, ele acabou no timão do San Marino, um barco próprio, com poltronas para 700 turistas. Em Buritama, a 535 quilômetros da capital, há casas de veraneio e clubes náuticos nas barrancas do rio. Oitocentos pescadores profissionais vivem dos bagres, pacus e tainhas que, sabe lá Deus como, o rio ainda sustenta. Ao redor das hidrelétricas, as barragens formam praias e as várzeas inundadas, reservas de fauna nativa.
Se as autoridades brasileiras têm tantas dúvidas sobre o que o progresso é capaz de fazer com suas percentagens inevitáveis de perdas e ganhos, melhor do que ensaiar vagos índices de CO2 para o gargarejo de Copenhague é provar aqui mesmo as licóes do Tietê, em amargas doses de barro fluido.
Tags: Água, Conservação





novembro 12th, 2009 at 14:32
Marcos,
para um jornalista com poucos anos de estrada (este é o meu caso), é gratificante ter um trabalho retratado com tanta riqueza (literária, inclusive) por você. Agradeço muito a menção. O Tietê, imagino, também. Abraço grande a você e aos leitores do blog,
Thiago
novembro 23rd, 2009 at 7:54
Gostei de cada palavra e também penso como o autor. Acho que deveriamos mostrar algo bem visível em Copenhague e o Tietê é bem visivel, para o bem ou para o mal. Com o dinheiro já gasto na despoluição desse rio, era para ele ser hoje um Sena ou Tâmisa. Não dá para entender porque até hoje ainda está causando enchentes e com uma poluição grande. Agradeço ao Marcos Sá Correa tão profunda reflexão sobre o assunto. Muito obrigado Marcos e continue assim.
novembro 23rd, 2009 at 15:46
Obrigado pela leitura e pelos comentários, Alvaro. Mas a “profunda reflexão sobre o assunto” não foi minha, e sim dos autores do livro sobre o Tietê, que me caiu nas mãos por acaso na semana em que rondava os jornais a discussão sobre o que dizer em Copenhague.
novembro 24th, 2009 at 10:52
Para enriquecer a visão sobre o Rio Tietê, recomendo a leitura do artigo “Rio e marginal Tietê, terra de quem?”, de Guilherme Wisnik, publicado originalmente na Folha de São Paulo, em 24/4/2006, e reunido no livro Estado Crítico. O autor apresenta uma nova perspectiva a partir do rio, sua condição de “não-lugar”, e do desafio desta visão proposto pelo Teatro da Vertigem, na encenação do espetáculo BR-3.
novembro 24th, 2009 at 13:03
Prometo ir atrás do livro, Adriano. Mas, se quiser comentá-lo aqui, sinta-se em casa. Um abraço, Marcos