A A

No meio do caminho, um atalho sem fim

sex, out 30, 2009

Artigos

Lago do Refúgio Jakob

Lago do Refúgio Jakob

_ Por la ruta o por los bosquecillos?

A pergunta do cabineiro argentino, no teleférico do Cerro Otto, nos pegou com um pé atrás. Da estação em cima da montanha se via a cidade de San Carlos de Bariloche, cintilando na beira do lago Nahuel Huapi. Chamava para um passeio. E o caminho? A resposta foi esse dilema em castelhano. Havia a estrada e os tais bosquezinhos.

Flores de amancay no bosque de Challuaco

Flores de amancay no bosque de Challuaco

Pelos bosquecillos, a estrada pedregosa e poeirenta passava no meio da primeira curva para dentro de um furo na paisagem, resvalando pelas pistas de esqui nórdico da velha escola do Cerro Otto, a inventora dos esportes de neve na Argentina. Deixava do lado de lá o panorama do Nahuel Huapi e as encostas que já não eram mais aquelas das fotografias de meio século atrás, quando na primavera desenrolavam suas ladeiras de margaridas até a beira do Centro Cívico, dentro da cidade.

Do lado de cá, o cenário continuava intato. Era fevereiro, alto verão na Patagônia, com o sol ligado mais de 15 horas por dia. O ar continha altos teores de resina e madeira. O verde parecia bêbado de luz. Ela descia coada, filtrando-se nos ramos das lengas, velhas faias nodosas que no sul da Argentina armam sobre a mata clarabóias feitas de estilhaços de verde translúcido, como as do Tiffany. Sob este céu reticulado, o chão parecia incandescente, aceso pelo reflexo azulado que subia do lago Gutierrez, ao pé do morro. Cada folha escancarava sua aura e o fundo da trilha fundia-se nos tufos amarelos das flores de amancay.

Flores de amancay nas trilhas do monte Otto

Flores de amancay nas trilhas do monte Otto

Começou ali, meio por acaso, uma caminhada de vinte e tantos anos pela borda dos Andes. As trilhas do Cerro Otto, quase encravadas num bairro residencial de Bariloche, eram a ponta de um labirinto de veredas que faz do Nahuel Huapi um parque nacional quase sem fim. Seus caminhos ligam riachos potáveis a montanhas de picos escultóricos, costeando vales ainda incubados em geleiras. Cruzam todas as cores possíveis da água, que no colégio aprendemos a chamar de incolor_ água verde, água cobalto, água esmeralda. Costeiam lagos.

Tantos lagos que, no fim do século passado, a comissão argentina que demarcava a fronteira com o Chile enjoou de batizá-los. Punha-lhes números. Um lugar desses podia ser puro desperdício para os pioneiros que ali chegaram cento e poucos anos atrás com intenções agrícolas ou comerciais. Mas se tornou estratégico para a economia da cidade na década de 1930, quando ela fisgou outro tipo de imigrantes europeus.

Tronador_6221

Alto verão nas geleiras do Tronador

Gente como Otto Meiling, o operário alemão que desceu na cidade da caçamba de um caminhão, olhou os picos nevados em volta e nunca mais fez outra coisa na vida além de palmilhá-los. Naquele tempo, a colônia rural havia gorado e o parque ecológico era ainda uma fantasia burocrática. Meiling, que escalou até à véspera dos 80 anos, foi quem ensinou Bariloche a calçar esquis, aclimatou o alpinismo nos Andes _ instituindo o andinismo, um esporte nativo.

Ele era quase um ermitão. Octogenário, ainda rachava lenha a machado à porta de seu chalé, a meio caminho entre a base e o pico do Cerro Otto. Mas subverteu Bariloche como um agitador recluso. Antes dele, as montanhas ficavam nos fundos da cidade. Eram barreiras ao comércio e ao plantio. Depois, passaram a ser mais do que sua vista. São o seu sustento.

Arroio Goye, no caminho do Laguna Negra

Arroio Goye, no caminho do Laguna Negra

Principalmente, a geração de Otto Meiling criou o Clube Andino Bariloche, uma instituição singular na América Latina. Por fora, parece um chalé modesto encostado num canto da cidade. Por dentro, tem 5.570 quilômetros quadrados – ou seja, todo tamanho do parque, um território quatro vezes maior do que o município de São Paulo, todo costurado por sendeiros e refúgios de alta montanha. Os segredos do Nahuel Huapi estão guardados nos mapas do Clube Andino. É neles que ficam, oara começo de conversa, picadas para o Emílio Frey, um refúgio de escaladores fincado sobre o Cerro Catedral, diante de uma laguna coroada por uma tiara de agulhas geométricas, com pontas tão claras e lapidadas que até a lua tira faíscas de suas arestas.

Há também o refúgio San Martín, na beira da laguna Jakob, escondido ao fim de uma picada com 20 quilômetros de solidão praticamente garantida, exceto pela companhia constante do arroio Casa de Piedra, um riacho espumante de água azul. Ou o Manfredo Segre, áspero bunker de cimento debruçado na estupenda laguna Negra. Verão adentro, bóiam em suas águas escuras icebergs quase fosforescentes. E o Otto Meiling, um abrigo vermelho de lata  pendurado a dois mil metros de altitude sobre os glaciares do Cerro Tronador. Pela janela dos fundos, parece escorrer para dentro da sala de almoço a montanha de gelo que separa a Argentina do Chile e modela nesses países, com suas avalanches eternas, a topografia de dois parques naturais.

Refúgio Otto Meimling no monte Tronador

Refúgio Otto Meimling no monte Tronador

Rústicos, descascados, para lá de monásticos, são prodigalidades do Club Andino esses refúgios do Nahuel Huapi. Neles se dorme por meia dúzia de pesos e se come por alguns trocados, inigualável pechincha quando o sal, o ovo da omelete, massa do macarrão ou a carne do bife à milanesa subiram até à mesa na mochila do concessionário. Como, aliás, acontece com tudo o que se vê lá dentro:  a lata de cerveja, o biscoito, a barra de chocolate, o colchão do beliche, a lenha do aquecedor, o bujão de gás da cozinha, os vidros da janela e até o material de construção, como as caixas de cimento das fossas assépticas que, pesando cada uma sessenta quilos, inauguraram poucos anos atrás no refúgio Frey o luxo inédito de um banheiro com portas.

Essa rede de abrigos abre oficialmente no verão, entre o degelo de um ano e as primeiras nevascas do ano seguinte. E a rigor não fecha nunca, seja porque os encarregados resolvem ficar depois que o último turista foi embora e tudo o que a vista alcança em volta de casa é uma pista de esqui informal, mas privativa, ou porque, mesmo vazios, com as chaves do lado de fora, continuam à disposição de quem for capaz de encontra-los enterrados na neve.

Sol de verão na geleira do Tronador

Sol de verão na geleira do Tronador

Essa Patagônia que começa em Bariloche e vai acabar no extremo sul do Continente tem o nome, mas não a aparência das estepes desoladas que o naturalista Charles Darwin colou para sempre na imaginação de aventureiros. Ali, nos Andes, a Patagônia é um lugar de fiordes, vulcões, selvas úmidas em clima temperado e lagos opalinos, onde derretem os gelos centenários que escorrem lentamente das montanhas.

Mais que um lugar no planeta, essa Patagônia é uma era geológica, relíquia da última glaciação que moldou a terra cerca de 20 mil anos atrás e, soprada pelos ventos meridionais que até hoje desafiam navegadores no sul do continente, só ali ainda não acabou de se dissolver. Retardatária, ela mantém em cartaz, num mundo acuado por ultimatos da natureza, o espetáculo da criação. É um dos raros cantos do mundo que ainda não ficou pronto. Portanto, não começou a apodrecer.

Nevasca de verão chegando ao Challuaco

Nevasca de verão chegando ao Challuaco

Às vezes, ela parece andar para trás. Há 80 anos, a família Vereertbrughen se plantou aos pés do monte Tronador, no coração do Nahuel Huapi. Ergueu uma estância em terras sem dono e agora toca uma hospedaria nos confins do parque nacional. Ao chegar, chamou a propriedade de Pampa Linda. Nomes assim costumam pecar pelo adjetivo. Pampa Linda, não. Ela é notoriamente linda, mas não é pampa. O substantivo foi se tornando incompreensível, à medida que a casa construída em campo aberto pelos Vereertbrughen mergulhava gradualmente num espesso bosque de lengas. Em três gerações da família, o glaciar recuou e a floresta avançou sobre seu leito de pedras.

Há 15 parques e reservas naturais entre a Argentina e o Chile, nos três mil quilômetros austrais da cordilheira. E quem começa a andar em Bariloche dificilmente pára antes de botar mais cedo ou mais tarde o pé no Parque Nacional de los Glaciares, reserva da maior coleção mundial de geleiras. São, pelo menos, 47, alimentando lagos de água turquesa com poliedros de gelo azul.

O primeiro sol do dia nas encostas do Tronador

O primeiro sol do dia nas encostas do Tronador

Mas é principalmente para as montanhas que apontam seus 200 quilômetros de trilhas. Lá fica o Cerro Torre, aquele obelisco de três mil metros, esguio e liso, que estrelou o filme No Coração da Montanha, de Werner Herzog. E o FitzRoy, imensa prova concreta de que existem mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a vã geologia. Para quem o vê da picada, brilhando por horas a fio no horizonte, o FitzRoy não parece propriamente uma montanha, e sim uma constelação de torres luminosas. É vermelho ao nascer do sol, azul em contraluz, prateado depois das nevascas. As nuvens parecem atravessá-lo como fantasmas.

Caminhando bem, pode-se liquidar a descida do Cerro Otto em menos de duas horas. Mas a picada, que parte de uma confeitaria giratória no alto da montanha e acaba onze quilômetros abaixo num posto de gasolina, levou-nos a um desses desvios que, uma vez na vida, cruzam as portas de um mundo paralelo. Aí, o passeio dura muitos anos. Talvez dure a vida inteira. Tudo depende de acertar na escolha entre a estrada e os bosquezinhos, como diria o cabineiro do teleférico, se em vez de ensinar atalhos fosse homem de provérbios.

Tags: ,

Tome a palavra

Copy Protected by Chetan's WP-CopyProtect.
2009 Marcos Sá Corrêa Designed by Romano Design Powered by Brun Web Solutions