Rumo ao futuro, mas de olho no passado
ter, out 27, 2009
Antes de pôr as botas na terra, Pers Lars Larsson bota na cabeça o chapéu de aba larga, em couro de rena. E isso muda instantaneamente sua postura de engenheiro eletrônico, que trabalha com tecnologia de ponta em energias alternativas junto a institutos de pesquisa suecos. Fica instantaneamente parecido com o ator John Wayne, pronto para entrarem cena no faroeste da taiga.
“O chapéu era da minha avó, que não saía de casa sem ele”, diz Lars. Faz questão de usá-lo nas florestas que costeiam a estrada para o lago de Draggen, assim que deixa para trás o vago centro urbano da aldeia de Granmor. Depois que nasceu seu primeiro neto, ele está empenhado em não ser o elo que romperá os laços de sua família com um estilo de vida rural enraizado em tradições rurais do século XVII.
Lars estava ali para mostrar uma fazenda de verão, a fäbod de Kal-Tövasen. Ou melhor, traduzi-la. São três casas de troncos, incluindo o estábulo, cercadas de bosque. Entre os pinheiros esguios, os telhados baixos aparecem de repente, na última curva da estrada de terra. Não há uma antena à vista, seja de rádio,TV ou celular, denunciando a presença indispensável das últimas palavras em telecomunicação. Galinhas miúdas e soltas, que no Brasil se chamariam de caipiras, ciscam embaixo das mesas ao ar-livre, mesmo durante o almoço coletivo. O banheiro é uma cabana rústica no fundo do terreno.
Em suma, Kal-Tövasen conserva como relíquia viva um tipo de roça que o interior do Brasil está esquecendo. E Lars cresceu numa faböd como aquela, construída há pelo menos 350 anos. Em sua casa, cozinhava-se na sala, em fogo de chão. Nem se falava em rádio ou TV.
“Só comprávamos café e prego”, ele conta. Lars trabalha em laboratórios avançados. E o que parece um largo desvio em sua careira tomou na maturidade o caminho de volta à roça, onde essa história de energia alternativa não começou ontem. Sua lembrança mais forte da infância é um nítido fragmento da manhã de primavera em que saiu de casa sozinho pela primeira vez. Estava nu em pelo. Corria a céu aberto, depois dos meses intermináveis meses de confinamento do inverno. Sentindo o frio da relva molhada nas pernas. E bafo morno das vacas que lhe lambiam a cara.
Essa existência ele deu por encerrada quando saiu de casa para a escola e, dali, para o curso superior. Aos 18 anos, voltando uma temporada de férias, explicou à avó que o mundo que ela conhecia tinha acabado. A velha ouviu uma a uma todas as novidades que o neto trazia de fora e concluiu: “Não vai dar certo”. Hoje, Lars está convencido de que muita coisa que lhe ensinaram como sendo o progresso inevitável de fato não não deu certo. E procura respostas em velhas tecnologias naturalmente sustentáveis.
A Karl-Tövasens produz diariamente 120 litros de leite, simplesmente deixando suas vinte e tantas vacas pastarem livremente em florestas públicas, onde não há cercas dividindo propriedades. Isso lhe garante a produção de três tipos de queijo e de manteiga fina, enquanto poupa os pastos que a família mantém na aldeia. Poupados do pisoteio e da ruminação, eles são usados para forrar de feno os estoques do confinamento inevitável no longo inverno.
A estrada que passa em sua porteira é de terra batida. Raros automóveis passam por ali. E os que passam geralmente param, para comprar laticínios, geléias e outros produtos tipicamente de aldeia, cujas receitas, feitas de produtos estritamente locais, jamais mudaram, porque os ingredientes são sempre necessariamente os mesmos. Durante o dia – e o dia é longo no curto verão nórdico – pode-se sentar para comer nas mesas rústicas, de bancos corridos, espalhadas sem nenhuma ordem aparente entre a casa e o estábulo.
O convite para o almoço inclui a obrigação explícita de cada um preparar a própria comida, em conchas de ferro com longos cabos de madeira, que se põe sobre a grelha, no braseiro de lenha resinosa, que cobre de fumaça o grupo inteiro . Primeiro, assando os pedaços de carne de porco gordurosa, bem à vista dos porcos que fuçam a cerca diante da floresta. “Vivem soltos”, Lars afirma. Quer dizer: estão ali para virar carne mais dia menos dia, mas até terão o direito a uma vida que deve corresponder a algum projeto suíno de felicidade na terra.
O resto do prato exige várias idas e vindas entre o fogo e o balcão dos ingredientes. Os queijos da casa. A massa líquida à base de leite que, sobre as brasas, envolverá os nacos de carne numa espécie de panqueca. A geléia ácida de frutas do bosque. A manteiga doce que Lars considera “cinco vezes mais nutritiva e saudável do que a outra”, porque não vem de um organismos alimentados por rações, e sim de uma salada diária de plantas silvestres, que as vacas escolhem com aparente sabedoria.
Em suas andanças, as vacas encontram fungos e plantas que parecem resolver todos os seus problemas veterinários. Uma delas foi seguida por quilômetros, enquanto buscava um cogumelo específico e raro, que cresce sob a terra, como trufa, junto a raízes de coníferas. Para exumá-lo, ela precisava cavar com uma pata dianteira. E assim se tratou sozinha de uma infertilidade crônica, que os veterinários não sabiam como curar. Examinado, o tal fungo se revelou uma fonte natural dos hormônios certos para a saúde reprodutiva.
Lars tornou-se um devoto fervoroso não só da dieta camponesa, como de seus ritos. Conservam-se na fäbod antigos costumes, como o de levar os filhos ao bosque assim que eles nascem e serrar em sua presença o topo de uma árvore. Duas ou três décadas depois, se eles precisarem de madeira para a casa própria, o tronco estará lá, maduro, de pé, à sua espera. Tratado assim, durará séculos em paredes de toras maciças. E a floresta terá todo o tempo necessário para ir repondo a árvore cortada, à medida que ela morre lentamente.
O gado pasta num raio que se estende entre 20 e 40 quilômetros durante o dia. E retorna por sua própria conta à noite, acostumado que está à presença de ursos, quase sempre na ronda. Os animais mais velhos de algum modo transmite aos mais novos o conhecimento da floresta, e isso os poupa do matadouro, quando deixam de dar cria ou leite, tornando-se improdutivos para a pecuária convencional.
E está mais provado que o solo, nas fäbod, melhora de uma geração à outra, em vez de se empobrecer. Ou seja, ali se pratica sem maiores retóricas aquilo que de uns anos para cá as grandes empresas do mundo passaram a chamar de “sustentabilidade”. Cada geração deixa à seguinte um solo mais rico do que encontrou. Lars está lá por isso. Não vai a Kal-Tövasen a passeio, mas em busca de saídas para os problemas que seu primeiro neto, nascido este ano, certamente terá pela frente, daqui a 2o ou 30 anos.
Tags: Agricultura Orgânica, Escandinávia












janeiro 27th, 2010 at 17:48
Parabéns pelo belo texto. É fantástico. Nasci e cresci na roça também. Sou cientista. Gostaria de copiar e postar no meu blog de sexta-feira, 29/01, o texto. Se puderem, me visitem
janeiro 28th, 2010 at 9:07
Adilson,
Obrigado pela leitura, pelo interesse e, sobretudo, pelos elogios. Vindos de um cientista, então, nem se fala. Pode usar, sim, o texto em seu blog, mas por favor dê o crédito e o endereço de meu blog, que está começando e precisa de um empurrãozinho desses na largada. Abraço, Marcos
janeiro 29th, 2010 at 9:23
Bom Dia, MARCOS
obrigado pela concessão – postei a sua página – há muito tempo acompanho seu trabalho, via “O ESTADO de SÃO PAULO”. Admiro sua inteligência e sensibilidade. Em Dezembro de 2008 aproveitei sua coluna sua e postei (com o devido crédito a sua pessoa, jornalista e historiador de Pernambuco) com o título: “ENCONTRADO O CRIMINOSO”
(lembra do “Pior que a Chuva, é o Manda-Chuva”. Bom, traduzi o seu texto, se contiver erros me comunique. Nosso blog é considerado um dos
TOP 50 referenciadores por USERS.OWT.COM. Abraços, ADILSON
janeiro 29th, 2010 at 9:33
Bom Dia Marcos,
obrigado pela autorização, postei o blog de hoje com a sua página e com a tradução em inglês (se contiver erros me avise), pois boa parte dos meus visitantes é de fora do Brasil – somos considerados um dos TOP 50 sites referenciadores por USERS.OWT.COM. Bom, Marcos, satisfação em trocar palavras contigo, há muito acompanho o seu trabalho, via “O ESTADO de SÃO PAULO”, pela sua sensibilidade e inteligência. Em Dezembro de 2008 postei um página com o título: “ENCONTRADO O CRIMINOSO” baseado no seu artigo “PIOR QUE A CHUVA, É O
MANDA CHUVA” (com os devidos créditos ao historiador e jornalista de Pernambuco MARCOS SÁ CORREA). Abraços, ADILSON
janeiro 31st, 2010 at 21:41
Boa Noite, Marcos
gostaria que fizesse uma visita ao nosso blog (postagem de hoje
intitulado DEMOLINDO A DEMOCRACIA) para conhecer um pouco do nosso pensamento, faço parte de um grupo que realiza pesquisa sobre energia magnética (a mais limpa do universo)
obrigado, ADILSON