Iguaçu, entre a saga e a história
qui, out 22, 2009
“As Cataratas eram nossas”, conta o pioneiro Irineu Basso, descendente de italianos que vieram de Treviso para o Brasil na Primeira Guerra Mundial. Em 1937, a família Basso morava em Santa Helena, então um modesto vilarejo encravado na floresta aparentemente sem-fim do Oeste paranaense. Faltavam ainda dois anos para que o Parque Nacional do Iguaçu brotasse na vizinhança.
O parque era então um dos projetos mais adiados da longa fieira de atrasos e oportunidades perdidas que pontua com reticências a história oficial do Brasil. Começara a ser discutido em 1876, com precocidade visionária, pelo engenheiro André Rebouças, na vanguarda do abolicionismo, da modernização capitalista e da exploração madeireira no Paraná. O parque nacional do Yellowstone, primeiro do mundo, tinha então apenas quatro anos de idade. O resto do mundo mal aprendera o que queria dizer isso.
Como não se concretizou em seu tempo, a proposta de Rebouças foi ultrapassada algumas décadas depois pelo povoamento maciço, que chegou tarde à região, mas com a pressa típica dos impontuais. Na virada do século XX, havia mais estrangeiros – principalmente paraguaios e argentinos, contrabandistas de mate e madeira nativa – naquele cafundó selvagem, mais ou menos perdido no meio da selva. Sem esquecerque, em abril de 1916, quando passou por lá o paulista Alberto Santos Dumont, as cataratas pertenciam Jesus de Val, uruguaio, radicado o Paraguai.
“É injusto que essas terras estejam em mãos de particulares”, concluiu o pai da avião e padrinho do parque nacional, ao visitar as cataratas como hóspede de Federico Engel, dono da pensão de madeira luxuosamente instalada na borda do cânion, estreando o lugar privilegiado de onde as janelas do Hotel das Cataratas se abrem com exclusividade para um dos maiores espetáculos naturais do mundo. Dumont foi se queixar ao governador da Província, Affonso de Alves Camargo. E assim passou finalmente pela cabeça de uma autoridade brasileira a idéia de desapropriar as terras de Val.
O parque nacional só se instituiu de pleno direito em 1939, 63 anos depois de ser imaginado por Rebouças, e 23 anos depois de receber o aval de Santos Dumont. Retardatário, veio ao mundo com 185 mil hectares de matas, salvas na última hora possível das cidades, plantações e indústrias que iriam desabrochar velozmente à sua volta, em meados do século XX.
Ele é grande, para os padrões de parques nacionais fora da Amazônia brasileira, a ponto de ter um rio inteiro – o Floriano – que nasce, corre e deságua sem deixar seus limites. Mas nem chega perto do que poderia ter sido no Segundo Reinado, quando tudo ali ainda estava por derrubar e construir. O parque do Guaíra imaginado por Rebouças teria ocupado todo o extremo Oeste do Paraná, de ponta a ponta, ligando as cataratas do Iguaçu às Sete Quedas pela floresta virgem que se engastava em terras públicas.
A versão de Rebouças nunca passou de um estalo visionário. Mas era um parque virtual tão fácil de concretizar que em 1890 o capitão Edmundo de Barros atravessou-o de um lado a outro, com um destacamento militar. Barros achou “o parque nacional do Guaíra” – ou seja, o parque imaginário de Rebouças – “a mais bela viagem circular que se pode fazer neste mundo”.
A corrida dos colonos para lá a partir dos anos 1960 foi rápida e avassaladora. Da mata, sobrou em duas décadas só a que fica dentro do parque nacional do Iguaçu, cercado como está por 14 municípios que não param de crescer, o museu a céu aberto de um passado recente, que sem ele seria difícil de imaginar e impossível de recompor, exceto na memória das pessoas que viram tudo aquilo antes da febre das derrubadas. Seu contorno, traçado em linhas geométricas que se pode reconhecer até da janela de um avião, é a prova tardia de que Rebouças tinha razão. Onde há mata, está o parque. Onde não há, o parque não veio a tempo.
As cataratas, com sua eloqüência inigualável, salvaram a floresta primordial do Oeste paranaense, pelo menos como fundo de quadro para seu anfiteatro de imensas quedas resplandecentes. Eram belas demais para ignorar. E violentas demais para submeter.Ali, o machado e o fogo dos colonizadores pararam para pensar. E a trégua poupou a floresta.
E a floresta, por sua vez, salvou as cataratas de um destino semelhante ao das quedas do Niágara, que já no século XIX serviam de exemplo universal para o não se deve fazer com maravilhas naturais – comercializá-las vorazmente, até que elas se reduzam a um feérico artifício turístico. Se as Cataratas do Iguaçu escaparam da exploração desenfreada, é à floresta que elas devem o ponto de exclamação da primeira-dama Eleanor Roosevelt ao conhecê-las: “Pobre Niágara!”.
Mas essas matas são ao mesmo tempo seu trunfo menos admirado pelos turistas. Eles visitas mais curtas, elas mal se dão conta de sua presença. E, por isso mesmo, foi nas barreiras impostas pela criação do parque ao abuso da mata nativa que se concentraram durante décadas os conflitos para acomodar às normas de uma unidade de conservação o espírito empreendedor e libertário da frente agrícola que povoou aquela fronteira.
Irineu Basso lembra do tempo em que os moradores da região chamavam as cataratas de “balneário”. Era ali seu “ponto de encontro”. E aos domingos eles enchiam as bordas do cânion com piqueniques, cavalgadas, violões, varas de pescar e armas de caça. “Era o melhor lugar do mundo”, Basso recorda. “Ninguém passava fome. Pegava-se uma sacola, ia até o rio e enchia de peixe, brincando. ”
Caçar porcos do mato nas matas do Iguaçu, segundo Basso, era meio caminho andado para levar à mesa rústica dos pioneiros “uma verdadeira delícia”. Matavam-se “50 ou 100 caititus de uma vez”. Veados, nas contas de alguns pioneiros, contavam-se pelo número de baixas em “dois ou três mil” por história de caçador. Vendeu-se carne de caça durante muito tempo bem na porta do parque nacional.
O problema é que, tratado assim, o tal paraíso duraria pouco. Só restaria agora nas lembranças de quem o viu primeiro, se não fosse a invenção do século XIX que, desde o começo, levou seus visitantes a fotografar seus encontros com as cataratas, como um registro inesquecível de suas próprias vidas.
Há quase cinco anos, essas velhas fotografias, guardadas em álbuns familiares ou esquecidas em fundos de baús, começaram a rever a luz do dia. Primeiro, por iniciativa de estudantes que lançaram em São Miguel do Iguaçu o projeto Memória Viva, entrevistando moradores e recuperando suas fotos. Esse esboço deu origem a uma exposição itinerante, que percorreu as escolas dos arredores.
Estava descoberta a chave da reconciliação dos moradores com o parque nacional. O parque não guardava só plantas e bichos, com boas recordações pessoais, que graças a ele não doíam como as imagens das serra de Itabira nos versos de Carlos Drummond de Andrade. Era o passado de cada um e o futuro de todos, concentrados em 185 mil hectares de reserva natural.
A fórmula vingou. Incorporou-se em Foz do Iguaçu à reavaliação do parque pelos moradores da região graças à teimosia da publicitária Ligia Basso, filha de Irineu Basso. Apoiado por várias empresas, o esforço de coleta havia recolhido de coleções particulares, no começo de 2009, quando o parque fez 70 anos, mais de três mil fotografias, recuperadas uma a uma digitalmente e catalogadas para o acervo do projeto Memória da Cataratas. Com elas estão a mais de 120 entrevistas exaustivas da pesquisadora Mônica Ferreira Laurito com antigos moradores. E a coleção continua aumentando.
Uma parte desse acervo está exposta ao ar livre junto às lojas e aos restaurantes que fecham o roteiro básico de visitas às cataratas no Refúgio Canoas, costeando o remanso do rio Iguaçu sobre a Garganta do Diabo. Transformou-se num trabalho permanente. Com ele, o parque nacional do Iguaçu ganhou um argumento em favor da conservação que os outros parques raramente têm. Sua história passou a incorporar a saga dos colonizadores, contando como juntas é difícil e indispensável aprender a viver lado a lado.













novembro 9th, 2009 at 20:50
Querido Marcos, adorei o “colunismo a quilo”. Abs, Flavia.
novembro 9th, 2009 at 21:56
Oba! Uma leitora. E que leitora!
Beijo,
Marcos
novembro 19th, 2009 at 9:55
Fantástico o blog! Gostei muito também do histórico das Cataratas. Já está nos meus Favoritos!
novembro 23rd, 2009 at 19:23
Grande Sá Corrêa:
A chamada globosfera está muito, mas muito mais interessante depois que você criou seu blog. A nota sobre o Parque do Iguaçu já dá uma idéia da maravilha do livro que, fiquei sabendo, você prepara. Parabéns e um abração!
novembro 23rd, 2009 at 19:57
Olá, Setti. Se fosse só para isso já valia o blog. Para nos reencontrarmos. Abração, Marcos
novembro 24th, 2009 at 22:42
Grande Marcos, que prazer seu colunismo a quilo
janeiro 20th, 2010 at 21:16
Muito bacana o texto, Marcos! Parabéns!
Como paranaense do interior que mora hoje perto do parque mais antigo do Brasil, toda vez que visito o mosaico de terra roxa arada e passo meus olhos nos cubículos de mata com as perobas despontando lá em cima, penso no que foi essa saga e a transformação feita por esses colonizadores….
Se Sete Quedas não resistiu a Itaipu, graças a Deus o som forte das águas do Iguaçu foi mais potente que a ambição do homem e permitiu que desfrutássemos dessa maravilha em Foz.
Abraço,
Busato
janeiro 21st, 2010 at 12:56
“Paranaense, que mora perto do parque”? Você quer me matar de inveja, Busato? Mesmo se o Iguaçu não é bem o parque mais antigo do Brasil – tem dois anos menos do que o de Itatiaia, ele sim, o primeiro criado no Brasil – sobram-lhe todos os outros requisitos para uma vida inteira de visitação, sem esgotar sequer a trlha das cataratas, que é uma das mais curtas e – descontada a escadaria do Corcovado, que também fica num parque nacional – provavelmente a mais pisada do país. Abração, Marcos
fevereiro 11th, 2010 at 11:37
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Thanks in advance and good luck!
março 10th, 2010 at 21:49
Olá, Marcos.
Sou grande admirador de seu trabalho, adorei conhecer o blog.
Abraços.
março 11th, 2010 at 11:49
Obrigado, Garon. E bem-vindo. Espero que sua presença ajude este aprendiz de Iguaçu a acertar o que está tentando dizer. Um abraço, Marcos