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Um parque tirado de velhos baús

seg, out 19, 2009

Iguaçu 2010

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Sem a invenção da fotografia, talvez o Parque Nacional não chegasse a tempo, para guardar as Cataratas do Iguaçu em sua moldura original de floresta nativa. Chitás, makás, kaingangues e outros povos indígenas se revezaram através dos milênios na borda suas 275 cachoeiras, deixando para a posteridade só um palavra – o nome Iguaçu – gravado na paisagem como o vestígio arqueológico de seu passado.

Iguaçu – ou seja, água grande – não chega a um nome eloqüente. Mas, pelo menos, descreve o lugar com termos extraídos do mundo natural. Os europeus nem isso fizeram. Quando apareceram por lá, em 1542, já traziam um vocabulário pronto para batizar qualquer descoberta do Novo Mundo com onomásticos extraídos do hagiológio cristão. E chamaras as cataratas de Saltos de Santa Maria.

Os dois nomes permanecem no mapa, lado a lado. E, com eles, as quedas do rio Iguaçu ficaram por lá, praticamente esquecidas. Foram, por séculos, um obstáculo a transpor, e não um prodígio a celebrar. E, por conta desse esquecimento, estavam mais ou menos intatas em 1876, quando o engenheiro André Rebouças, pioneiro da exploração madeireira no Paraná e da campanha abolicionista no país, vislumbrou o futuro em Província do Paraná, Caminhos de Ferro para Mato Grosso e Bolívia, um livro precoce e visionário.

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Rebouças sugeriu que se deixasse tudo aquilo exatamente como estava, para dar “às gerações vindouras” o direito inalienável de conhecer as cachoeiras “tal como Deus criou”, em “toda a gradação do belo ao sublime, do pitoresco ao assombroso”. Foi o melhor projeto de desenvolvimento econômico já concebido para a região. Como se verificaria muito tempo depois.

Mas estava muito à frente de sua época. Rebouças não foi só o primeiro brasileiro a falar em parque nacional. Foi, no mundo inteiro, uma das primeiras vozes influentes a propor um parque nacional, dissertando sobre o assunto com segurança e clareza. A idéia acabava de surgir nos Estados Unidos, materializada quatro anos antes no decreto que desviou do Yellowstone a marcha para Oeste da sociedade americana. Levaria algumas décadas para se tornar um modelo de conservação universal.

Quando Rebouças defendeu um parque nacional contínuo, ligando as cataratas do Iguaçu a Sete Quedas pelo eixo do rio Paraná, toda aquela fronteira era terra incógnita e sem dono, imersa numa floresta que parecia sem fim. E, de costas para ela como estava, o Brasil custou a ouvir a sugestão do engenheiro. Quarenta e quatro anos depois de Rebouças, ela parecia menos provável do que nunca, quando em 1920 o deputado paranaense Jayme Ballão viajou a Foz do Iguaçu.

Ballão percorreu “uma rua na floresta virgem”, através do “imenso sertão”, onde “só se ouvia urro das feras e a música soturna do vento nas frinchas das árvores seculares”, para alcançar as cataratas. Espantado com o que encontrou ali, teve que pedir socorro às musas, “como Dante nas portas do Inferno”, e proclamar que não havia “expressões, na linguagem humana, capazes de traduzir os nossos sentimentos de admiração”, para convencer o poder público a tomar posse com urgência dos recursos naturais que lhe pareceram abandonados nos confins do território nacional. O que Ballão queria mesmo era o progresso da economia local.

_MG_1663-EditAs cachoeiras teriam que esperar ainda muitos anos para voltar ao ponto de largada. Antes do parque nacional concebido por Rebouças, vieram os colonos, rasgando a floresta a machado e fósforo. Atrás deles, chegaram as autoridades. Aos poucos os turistas, que a princípio eram os próprios colonos, nos piqueniques, pescarias e até caçadas pelos arredores de suas clareiras, nas horas vagas. Aí, apareceram por lá as máquinas fotográficas. E o mundo passou a ter uma chance de ver territórios virgens antes de desfigruá-los irreediavelmente pela conquista. Não foi propriamente nas Cataratas do Iguaçu que a fotografia estreou neste papel de vanguarda da natureza preservada. Ela já veio ao mundo com esse pendor, talvez por herança de seus inventores. Antes de criar a primeira câmera, o pintor Louis Jacques Daguerre expunha em Paris lugares distantes e exóticos, através de desenhos projetados em torno da  platéia pelo jogo de luzes de seus dioramas.

Pouco depois de Daguere,  o inglês William Henry Fox Talbot, botânico e naturalista, além de pioneito do processo do processo fotográfico, começou a clicar paisagens em 1840.Dali a explorar o planeta para a fotografia recém inventada foi só um pulo. Em 1849, Gustave Le Gray já fotografava as árvores e rochedos da floresta de Fontainebleau, nos arredores de Paris. Três anos depois, saía na França o primeiro álbum de “desenhos fotográficos”, com imagens trazidas por Maxim du Camp de lugares tão remotos como a Núbia e a Síria. A terra inteira virou  “um panorama gigantesco”, diz a curadora das coleções fotográficas do Museu d’Orsay, Françoise Heilbrun. E, mesmo de longe, qualquer pessoa podia ver, ou pelo menos vislumbrar, em preto e branco, sem côres nem movimento, numa ínfima escala da realidade, o que antes não podia sequer imaginar.

A fotografia começou ainda no século XIX a disputar novas fronteiras passo a passo com os povoadores. O decreto que instituiu o primeiro parque nacional foi precedido no Yellowstone pelo fotógrafo William Henry Jackson, popularizando antes que  fosse tarde seus geysers e suas pradarias escancaradas aos bisões. Na Califórnia, o presidente Abraham Lincoln assinou em 1864 a lei que evitou a ocupação do Yosemite, depois que seus vales glaciais e suas sequóias faziam sucesso, de costa a costa, nas galerias de arte, fotografadas por Carleton Watkins.

No Brasil, parecem hoje premonitórias as fotografias de Alberto Henschel no planalto das Agulhas Negras, 67 anos antes que surgisse naquelas montanhas o Parque Nacional do Itatiaia, o primeiro do país. Apesar do vanguardismo de André Rebouças, as Cataratas do Iguaçu ficaram para depois. Em parte porque, até o fim do século 19, o isolamento as preservava naturalmente. E também porque raros brasileiros sabiam o que estavam perdendo ali. E que corriam o risco de perder para sempre. O  Parque Nacional do Iguaçu só foi decretado pelo presidente Getúlio Vargas no dia 10 de janeiro de 1939.

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Veio atrasado, mas cheio de urgência. Deixava para depois “do indispensável reconhecimento e estudo” a definição de seus limites. E dava prioridade ao edital de licitação, pedindo tudo ao mesmo tempo – sede, casas de funcionários, estradas de rodagem, aeroporto, escadas para a visitação das cachoeiras, trilhas, pontes e corrimãos, além de um hotel de luxo e de uma usina hidrelétrica para gerar 500 quilowatts.

Com o parque , Foz do Iguaçu transformou-se da noite para o dia num canteiro de obras. Meio século depois de instalada, a cidade ainda tinha a essa altura pouco mais de três mil habitantes e quatro casas de alvenaria. Sua economia pulsava ao ritmo das polias de 80 madeireiras. Sua avenida principal se liquefazia nos verões chuvosos. Os aviões que faziam a sua rota pousavam na terra batida.Os parques nacionais têm fama de estrangular cidades. Em Foz do Iguaçu aconteceu o contrário. O parque teve luz gerada por hidrelétrica antes que a cidade. Eela tem hoje mais de 300 mil habitantes por ser, antes de mais nada, um dos grandes destinos turísticos do mundo, com as cataratas atraindo ao parque nacional anualmente, só no lado brasileiro, mais de um milhão de visitantes.

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Mas os números de hoje como as palavras de antigamente são incapazes de dizer tudo sobre as Cataratas do Iguaçu. O cenário, em si, sempre falou e continuará falando mais alto. É ele que, desde a chegada dos pioneiros, sela o compromisso dos povoadores de Foz do Iguaçu com uma paisagem que no fundo pertence a cada um, pois todos visitantes levam um dia para casa um pedaço indelével de sua própria vida, associado pela fotografia à paisagem indescritível do parque nacional.

É dessas experiências, registradas em fotografias atuais e antigas, que tratarão estas páginas daqui para a frente, ao longo de pelo menos um ano inteiro. Dia a dia, passo a passo, seguindo os passos de John Muir. O andarilho escocês ensinou o povo americano a gostar de parques nacionais. E achava que a maior virtude das cachoeiras é abrir os olhos de qualquer pessoa para a beleza natural dos rios. As cataratas prestam esse serviço ao Iguaçu.

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1 Comments For This Post

  1. Ricardo A. Setti Says:

    Caro Marcos, eu sabia que você era tão bom fotógrafo quanto é jornalista. Mas também não precisava exagerar! Que maravilha de material!

    Parabés um abraço do
    SETTI

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