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Árvores já bateram recorde de 2016

sáb, out 17, 2009

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Floresta da Tijuca_0163

Se não for um treino muito antecipado de superfaturamento para os jogos de 2016, a promessa de que o Comitê Olímpico Internacional plantará 24 milhões de árvores na cidade é a maior notícia ambiental do Rio de Janeiro desde 1565, quando Estácio de Sá inaugurou a guerra de quase cinco séculos entre os cariocas e a estupenda beleza de sua paisagem.

Ali, uma das primeiras empreitadas civizatórias foi secar a lagoa que havia aos pés do morro Cara de Cão. Ela hoje só costuma ser recordada no melancólico epitáfio do padre José de Anchieta, que a dresceveu como “uma légua de água podre”.

Maior floresta?

Vinte e quatro milhões de árvores soam como um número prodigioso, que roça o incomensurável. E o incomensurável, em contas públicas, sempre cria problemas. O major Manuel Gomes Archer, no Segundo Reinado, levou 13 anos plantando 80 mil mudas nas encostas da Tijuca. Com elas – e mais 20 mil do barão Gastão d’Escragnolle – deixou no Alto da Boa Vista a mata que, até hoje, as autoridades municipais enchem a boca para chamar de “maior floresta urbana do mundo”.

Maior do mundo é puro ufanismo. O que ela sempre foi, e continua sendo, é o maior feito da engenharia nacional para abater a dívida ruinosa que o Rio de Janeiro contraiu com sua natureza. E o déficit vem de longe. Em 1502, quando foi descoberta no réveillon pela tripulação de Duarte Coelho, a baía de Guanabara parecia pronta para sediar qualquer competição internacional de musculatura geológica irretocável.

Ela era nada mais, nada menos o que um dia o inglês Richard Flecknoe descreveu como “a mais sedutora paisagem do mundo”. Ou seja: “Um lago, salpicado de ilhas verdejantes de diversos tamanhos”. À sua volta, Flecknoe apenas “matas que, com o solo virgem desde a criação do mundo, produz, sem nenhuma cultura, árvores frondosas e enormes, algumas com sete ou oito braças de diâmetro e mais de 70 ou 80 de altura. Com elas, os brasileiros, utilizando um único tronco, fazem canoas e barcos de duas ou três toneladas”.

De lá para cá, a baía perdeu 36 ilhas, 46 praias, 104 quilômetros quadrados de restingas e 160 de manguezais. As grandes lagoas que coalhavam o núcleo histórico da cidade viraram, na melhor das hipóteses, pequenos jardins ou grandes praças públicas. Na pior das hipóteses, perderam-se no labirinto das ruas. Essas antigas lagoas abrigam atualmente os muitos morros derrubados para aterrá-las, inclusive o do Castelo, que não devia ser tão ruim quanto se alegou em favor de seu desmonte completo, na década de 1920, pois foi em cima dele que vingou efetivamente a ocupação colonial.

O governador Mem de Sá, pelo menos, considerou-o “o mais conveniente” para o povoamento, por ser “de um grande mato espesso cheio de muitas árvores e grossas, que se levou assaz trabalho em as cortar”. Do morro do Castelo, berço histórico do Rio de Janeiro, sobrou só o nome de um lugar no centro da cidade que hoje se designa como “Esplanada”. Quem quiser visitá-lo atualmente pode procurar os restos do Castelo debaixo das pistas do Jockey Club, na lagoa Rodrigo de Freitas.

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Juros do desinvestimento

Com as sobras desse desperdício, o Rio de Janeiro ganhou agora a competição internacional para sediar os jogos de 2016, sacando mais uma vez de um dote de belezas naturais que só por excesso de fartura não foi ainda completamente exaurido. Nem a Floresta Nacional do major Archer escapou incólume ao avanço da cidade. Acabou sitiada por favelas, que governo nenhum levanta o dedo para conter.

E não é só. Ao longo da década de 1990, avançando por este milênio adentro, sumiram nas águas turvas da Guanabara 700 milhões de dólares de um programa de despoluição que poluiu mais a política carioca do que limpou a baía. Durante mais de uma década, depositou-se dinheiro a rodo num lodo antes habituado a engolir chumbo, cádmio e mercúrio. São os metais pesados dos financiamentos a fundo realmente perdido.

De repente voltam à tona, com olímpica animação, projetos grandiosos que deveriam estar concluídos há anos, inclusive de despoluição da baía, alguns já inaugurados por mais de um governo estadual. Fala-se outra vez em dragar canais assoreados por lixo tóxico, em filtrar rios cuja vida mais exuberante vem agora do esgoto in natura ou em recompor as matas ciliares dos rios e canais que desaguam na Guanabara, cujas margens são tradicionalmente reservadas a barracos e carcaças de automóveis. Tudo muito auspicioso. Tão auspicioso que até vale a pena ouvir de novo. Mas nenhuma tem o ineditismo e a escala dos tais 24 milhões de árvores.

Se forem plantadas a sério, com o devido espaçamento entre as mudas para abrir alas às futuras copas, elas ocupariam uns 144 mil hectares, pelos cálculos de um engenheiro florestal escolado na matéria, inclusive em arborização urbana. Cobririam vários parques nacionais como o da Tijuca. Mas, nesse caso, não caberiam no município inteiro, por mais verde que ele queira ser daqui para a frente, ou mesmo que tenha sido no passado distante. Parece árvore demais. E tudo o que é demais, neste país, acaba se revelando realismo de menos.

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